Impressões de quem lê livros como quem faz chá...

21
Jun 09

De fácil leitura, o livro cativa pela ternura da história que se traduz numa amizade sem tamanho.

Jogando com a simplicidade da linguagem, o autor brinca com as palavras dando-lhes a personalidade que só uma criança de nove anos lhes conseguiria incutir.

Este narrador-criança toca-nos particularmente, sobretudo se tivermos em conta a inocência que o caracteriza. Vemo-lo crescer numa viagem que mudará para sempre a sua vida... Essas transformações devem-se essencialmente às experiências que vive e às atitudes que presencia.

Preso num mundo onde o amor não existe ou é idílico (como o que a sua irmã sente pelo oficial alemão), Bruno é fruto da rígida educação alemã. Ama a irmã, mas chocam-se enquanto irmãos (como em qualquer relação). E nesse aspecto, o leitor revê-se e, mesmo sem querer, é transportado à sua própria infância.

Porém, a imagem da prisão intensifica-se na nova casa onde Bruno vai morar. Um espaço amplo, vedado ao longe por arame farpado. Aí, o frio e a insegurança irão dar lugar ao calor e à segurança de uma amizade eterna.

Este menino narrardor revela-se, então, demasiado crescido para a idade, apresentando atitudes de dupla natureza: as de adulto e as de criança.

Nesse espaço de contraste (frio físico e calor humano), Bruno conhece Samuel e, simultaneamente, conhece o humanismo e a amizade. Rapidamente esquece os amigos que deixou para trás e passa a formar parte de uma vida tão solitária como a sua própria. E asssim, como pessoa, Bruno vai crescendo em imagem reflexa do próprio Samuel. Ou seja, as duas personagens são duas faces do mesmo espelho: nascem no mesmo dia, viajam de comboio (num símbolo claro de viagem final...) e, de mãos dadas, morrem juntos de "pijama às riscas" e descalços...

Por falta de ser protegido (sendo até ignorado) Bruno toma como cruzada proteger Samuel, mesmo não percebendo o que se está a passar. Dar protecção significa - também - necessidade de ser protegido.

Por influência do pai, que nada explica e tem uma ambição desmedida, Bruno parte à descoberta do que sempre lhe foi ocultado, deixando ao leitor a questão: será que se deve esconder tudo das crianças e protegê-las de tudo? A resposta parece óbvia a quem lê o livro...

Mas o pai de Bruno representa, ainda, o Nazismo puro, sendo um elo daquela máquina.

Bruno, por seu lado, como a avó que lhe ensina a ser "outro" nas peças de teatro que monta com ele, é fiel a uma amizade que lhe custará a vida. Símbolo da ingenuidade e da inocência, o pequeno rapaz mostra-nos a imensa capacidade de ter um coração grande sem olhar a quem está do outro lado do arame...

Assim, este pequeno grande livro faz-nos retirar várias lições: a uma ambição desmedida corresponderá sempre um preço a pagar que pode envolver aqueles que mais amamos; a curiosidade conduz à aventura, o que numa criança é normal. Porém, a curiosidade pode ser levada ao extremo se continuamente ocultamos às crianças as coisas menos boas da vida.

Num mundo onde cada vez mais a tolerância é uma palavra de ordem, a igualdade faz todo o sentido. Mas ainda não é assim. Continuamos a olhar os outros e a julgá-los apenas por pormenores sem a mínima importância. O livro ensina-nos a desdenhar esses pormenores e a olhar todos da mesma maneira, sem preconceitos pré estabelecidos.

Sendo o narrador uma criança, o autor consegue fazer dela uma realidade. É tão realista que nos identificamos com ela. Também nós tivemos os melhores amigos, também nós chegámos atrasados às refeições porque nos distraímos ... Também nós fomos crianças e em Bruno revemos a nossa infância. Há então dois mundos: o dos adultos, que é fabricado, e o que a criança vê, onde todos são iguais e não há preconceito nem malícia.

O pequeno Bruno foi de tal forma protegido que não vê as maldades e é por isso que tem um coração tão grande.

A maldade aprende-se, concluímos, e os adultos têm culpas no cartório.

A leitura deste livro dá-nos ainda o mundo das mulheres (vítimas como as crianças) e o dos homens, que tudo fazem para atingir o poder.

Precisamos de ensinar e de contar às nossas crianças histórias complicadas, como a do Holocausto, para que não haja mais "rapazes de pijamas às riscas".

publicado por I.M. às 14:29

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