Impressões de quem lê livros como quem faz chá...

26
Set 09

Acabaram as férias e as conversas sobre livros em torno de uma chávena de chá recomeçam. Deixamos aqui as nossas impressões sobre o último que discutimos. Já agora, hoje é a vez de Maeve Binchy com Alma e Coração...

 

 

De leitura absorvente, mas simples, O Jardim Encantado apresenta um universo mágico onde as plantas têm poderes que podem mudar o curso de uma vida.

Curiosamente, a magia da obra dá-se nesse jardim, pois aí acontece a beleza única do amor de Claire e Taylor. E lá que as plantas têm poderes, não há dúvida. Podem não ser mágicos, mas são pelo menos curativos (ou paliativos?). De que outra forma podemos entender o chá?

Não é de chá que se fala na obra mas de macieiras e maçãs. Tentadoras desde o princípio dos tempos, ganham na história igual valor simbólico. De uma perspectiva superficial e imediata, significam as partidas que a vida gosta de pregar quando empurra (tal como as maçãs) para qualquer lado. Todavia, não seria esta uma árvore que gostássemos de ter no jardim. É que a vida deve ser vivida dia-a-dia com as surpresas que nos vai reservando. E se a árvore existisse ali por perto, dar uma dentada na maçã seria sempre uma tentação...

É neste ambiente que conhecemos Claire e Sydney. A primeira acredita que tudo e todos são temporários. A segunda partilha da filosofia de que não nos podemos agarrar a tudo. Por isso, a sua vida é um conjunto de relações não comprometidas. Nas duas encontramos um pouco de nós, embora tivesse que haver um estádio intermédio para que a identificação total fosse possível.

Sydney é aventureira por força da influência da mãe e também pelos ciúmes da irmã. Para além do mais, não se revê nas características da família.

Claire, mais próxima de nós, é fechada e dificilmente consegue abrir-se. Vem de um meio considerado diferente e a diferença é pouco aceite...No entanto, as duas irmãs são duas faces da mesma moeda.

Por isso, um dos pontos importantes da obra é o arrependimento. As relações de sangue são muito fortes e as irmãs completam-se.

Sydney, a aventureira, volta a casa fugindo de uma relação complicada. E fez bem. Partiu em busca de protecção que, às vezes, só a família pode dar. Aqui reside um outro ponto importante da história: a violência doméstica. Um tema muito em voga nos dias que correm. Mas, mais grave, é o facto de muita dessa violência existir camuflada e encoberta, traduzindo-se, em grande parte dos casos, em violência psicológica (mais forte e mais refinada).

David representa, assim, a demonstração exagerada do machismo na obsessão patológica por Sydney.

E depois, numa noite de intenso aroma, acontece o amor... Claire e Taylor passam da dicotomia atracção/repulsa (que conduz ao sofrimento e ao fechamento por medo do abandono) ao verdadeiro amor. A força deste amor leva-nos a pensar que  estão destinados um ao outro. A aura que nele se pressente fá-lo uma pessoa diferente para um mundo diferente. Tal como Claire. E há um tanto de "adolescente" neste amor, pois é vivido fora de (e do)  tempo. Dois extremos que se aproximam e atraem porque se completam.

À volta gira Bay. A pequena que tem um dom e, por isso, é especial, demonstrando uma sensibilidade extrema. Mas à volta gira também Evanele. Aquela que faz a ligação entre todas as personagens, estabelecendo o tom da história. Os objecto que oferece, desconhecendo a razão, vão unindo todas as pontas até que o ciclo se fecha. Como a pregadeira...

 

publicado por I.M. às 10:06

Círculo de Leituras
Freguesia do RAMALHAL - Torres Vedras
Estamos a ler...
Patrick Suskind, O Perfume
Data de discussão...
22 de Janeiro de 2011
pesquisar neste blog
 
Setembro 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25

27
28
29
30