Impressões de quem lê livros como quem faz chá...

28
Fev 10

A todos quantos já perguntaram pela nossa leitura de O Amor nos Tempos de Cólera deixamos uma informação. Não foi possível o encontro no Sábado dia 27, porque as condições atmosféricas não o permitiram. Mas voltaremos a ver-nos no dia 13 de Março. Prometemos passar por aqui logo que tenhamos resultados da nossa discussão.

publicado por I.M. às 12:38

01
Fev 10

Mais uma vez,  cumprimos o nosso ritual e sentámo-nos à volta de um chá e de um livro. Quase por unanimidade, considerámo-lo longo e não muito fácil de ler. Mas, de repente, soltaram-se as línguas e as dificuldades foram dando lugar a entendimentos e a identificações... E foi uma tarde de memórias!

 

Sendo um livro iniciático, este dá conta da passagem da infância à idade adulta de uma menina chamada Adriana, que vive em circunstâncias muito específicas: não é amada nem desejada e cresce num mundo à sua medida. Mas não será única. Muitas Adrianas e muitas famílias como a dela - vivendo de aparências e ignorando o conceito de amor - existem por aí. Parece até que o contexto mudou ainda para pior e a disfuncionalidade da família se tornou mais acentuada.

Adriana e Gavrila - os amigos e um grande primeiro amor - são "órfãos afectivos", isto é, ninguém os ama nem ninguém os respeita. Por isso, Adriana, durante a noite (porque a noite é o espaço das visões e dos tempos), cria mundos onde gigantes e duendes travam uma batalha ímpar e quase desigual.

E aqui começa a beleza do livro. Sem querermos damos conta de uma obra escrita num compasso binário de inocência e realidade, de luz e de sombra, de imaginação e de objectividade... de espaços encerados e espaços rugosos.

Deste modo, também a sociedade se apresenta em espelho: de uma lado retrata-se o fecho e a intransigência, onde apenas a aparência e a convenção social interessam. Do outro, há a sociedade do amor, da liberdade e da amizade. A sociedade daqueles que, aos olhos de todos, não têm estatuto. Entre uma  e outra vive Adriana, a representação da solidão... Adriana, aquela com quem nos identificamos e onde encontramos pedaços de nós. Adriana,  que vive com Gavrila uma bela história de amor infantil, onde não faltam os ingredientes do amor "crescido": a alegria do encontro, a angústia de não saber se voltarão a ver-se, o desassossego por não saber o que o outro pensa de nós...

E tudo começa, calculem, quando um unicórnio decide desatar a correr de uma tapeçaria. A partir daí, o mundo de Adriana nunca mais foi o mesmo. Nem o nosso... As memórias da infância já longínqua avivaram-se e falou mais alto a nostalgia de tempos perdidos no tempo (uns melhores, outros nem por isso). Alto falou também a necessidade de criar nas crianças (cuja realidade é tão objectiva quanto a imagem da televisão) esta necessidade de imaginar e ver no espaço o que lá não está com uma fé inabalável...

Muito mais importante do que as palavras, no livro imperam os silêncios e a incerteza sobre a volta do unicórnio...

Queiramos ou não, o romance dá-nos uma visão desencantada da natureza humana e isso incomoda. Porém, no mundo de Adriana, os unicórnios galopam e deixam pegadas na neve. E enquanto soubermos sonhar, também nós podemos acreditar na possibilidade de voltar a alcançar esse paraíso da infância (inabitado ou povoado de seres mágicos).

Foi assim que, naquela tarde cinzenta, até o unicórnio nos sorriu com o seu olhar...

 

publicado por I.M. às 15:34

Círculo de Leituras
Freguesia do RAMALHAL - Torres Vedras
Estamos a ler...
Patrick Suskind, O Perfume
Data de discussão...
22 de Janeiro de 2011
pesquisar neste blog
 
Fevereiro 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27