Impressões de quem lê livros como quem faz chá...

07
Dez 09

Arrastados por uma linguagem poética e envolvente, lemos - de forma fácil, mas não pacífica - este romance de palavras e silêncios, onde o não dito se sobrepõe, a maior parte do tempo, àquilo que é dito. Um romance que não é um romance, podendo antes ser visto como um retrato suspenso da vida de todos nós, que desperdiçamos grandes momentos com futilidades.

Também não se trata de uma história de amor, pois não foi tudo dito. Mas talvez o possamos entender, então, como um conjunto de cartas de sentimentos e uma carta de despedida. Por isso, ele é um "quase romance"...

Nesta história, resgatada do (e no ) tempo, autor e narrador confundem-se numa só voz. Contudo, é nítida a diferença entre o  "narrador da viagem" e o  "narrador de 20 anos depois". Assiste-se a um amadurecimanto do homem e, consequentemente, a uma maior sensibilidade. A idade conduz à aprendizagem e a vivência do deserto, do "nada", fá-lo dar conta - 20 anos depois - da importância dos pormenores. Retém do deserto os "nadas": a tempestade, a distância, a noite, o silêncio... Assim se parte, neste desabafo que é a história, de um momento do "nada" - a morte.

Ao recuperar a memória desta viagem, o detalhe é uma constante. Parece ser intenção do autor fazê-lo como forma de tributo. Ou seja, através da escrita, devolver a memória de Cláudia, da sua existência, e do "deserto" que os uniu. Em última análise, presta-lhe uma homenagem, dando voz às pequenas coisas a que, às vezes, não damos importância. E é aí que encontramos  a sensibilidade do autor. A tal que a vida lhe foi ensinando...

Mas Deserto é a palavra-chave deste livro. Alvo de múltiplas leituras, revê-se na palavra ( e no conceito) solidão. E há dois desertos: o dele - apenas vivido 20 anos mais tarde - e o dela. No entanto, os dois cruzam-se num tempo de intersecção, pois ele viveu no deserto dela. Ele, que nem é do mundo do silêncio, aprendeu a gostar do silêncio dela. O título da obra dá conta precisamente dessa vivência no deserto dela.

Mas esta história de um quase amor é também  um meio de retratar um povo. O povo português. De forma astuta e inteligente, o autor vai dando conta daquilo que nos caracteriza enquanto povo: o suborno, o "desenrasque", a persuasão, a burocracia..., sendo ele próprio o representante dessas características, mesmo que a sua intenção seja apenas a de impressionar uma mulher. A mulher que, afinal, toma o comando (ainda que o homem não assuma), apesar do tom misógino que vai perpassando pelo texto...

Numa espécie de contraponto,  a seu tempo, a voz de Cláudia faz-se ouvir e toma conta da narração. É a forma do autor mostrar  que deseja que a vivência que ele fez no deserto dela seja a mesma que ela viveu.

E entre silêncios e palavras vamos, a duas vozes, atravessando um deserto que até chega a ser o nosso...

publicado por I.M. às 14:08

Círculo de Leituras
Freguesia do RAMALHAL - Torres Vedras
Estamos a ler...
Patrick Suskind, O Perfume
Data de discussão...
22 de Janeiro de 2011
pesquisar neste blog
 
Dezembro 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31