Impressões de quem lê livros como quem faz chá...

07
Dez 09

Agora só voltamos a discutir livros à volta de uma chávena de chá no novo ano que se aproxima. Por isso, deixamos aqui, a todos os que nos visitam, os nosso votos de Boas Festas e de um Feliz 2010.

 

HISTÓRIA ANTIGA
Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto

E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação. 
Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.
Miguel Torga
Antologia Poética
Coimbra, Ed. do Autor, 1981

 

publicado por I.M. às 14:56

Arrastados por uma linguagem poética e envolvente, lemos - de forma fácil, mas não pacífica - este romance de palavras e silêncios, onde o não dito se sobrepõe, a maior parte do tempo, àquilo que é dito. Um romance que não é um romance, podendo antes ser visto como um retrato suspenso da vida de todos nós, que desperdiçamos grandes momentos com futilidades.

Também não se trata de uma história de amor, pois não foi tudo dito. Mas talvez o possamos entender, então, como um conjunto de cartas de sentimentos e uma carta de despedida. Por isso, ele é um "quase romance"...

Nesta história, resgatada do (e no ) tempo, autor e narrador confundem-se numa só voz. Contudo, é nítida a diferença entre o  "narrador da viagem" e o  "narrador de 20 anos depois". Assiste-se a um amadurecimanto do homem e, consequentemente, a uma maior sensibilidade. A idade conduz à aprendizagem e a vivência do deserto, do "nada", fá-lo dar conta - 20 anos depois - da importância dos pormenores. Retém do deserto os "nadas": a tempestade, a distância, a noite, o silêncio... Assim se parte, neste desabafo que é a história, de um momento do "nada" - a morte.

Ao recuperar a memória desta viagem, o detalhe é uma constante. Parece ser intenção do autor fazê-lo como forma de tributo. Ou seja, através da escrita, devolver a memória de Cláudia, da sua existência, e do "deserto" que os uniu. Em última análise, presta-lhe uma homenagem, dando voz às pequenas coisas a que, às vezes, não damos importância. E é aí que encontramos  a sensibilidade do autor. A tal que a vida lhe foi ensinando...

Mas Deserto é a palavra-chave deste livro. Alvo de múltiplas leituras, revê-se na palavra ( e no conceito) solidão. E há dois desertos: o dele - apenas vivido 20 anos mais tarde - e o dela. No entanto, os dois cruzam-se num tempo de intersecção, pois ele viveu no deserto dela. Ele, que nem é do mundo do silêncio, aprendeu a gostar do silêncio dela. O título da obra dá conta precisamente dessa vivência no deserto dela.

Mas esta história de um quase amor é também  um meio de retratar um povo. O povo português. De forma astuta e inteligente, o autor vai dando conta daquilo que nos caracteriza enquanto povo: o suborno, o "desenrasque", a persuasão, a burocracia..., sendo ele próprio o representante dessas características, mesmo que a sua intenção seja apenas a de impressionar uma mulher. A mulher que, afinal, toma o comando (ainda que o homem não assuma), apesar do tom misógino que vai perpassando pelo texto...

Numa espécie de contraponto,  a seu tempo, a voz de Cláudia faz-se ouvir e toma conta da narração. É a forma do autor mostrar  que deseja que a vivência que ele fez no deserto dela seja a mesma que ela viveu.

E entre silêncios e palavras vamos, a duas vozes, atravessando um deserto que até chega a ser o nosso...

publicado por I.M. às 14:08

28
Nov 09

O tempo foi passando e o texto foi-se atrasando. Mas o prometido é devido e aqui fica ele.

 

De leitura nem sempre fácil, Chocolate é uma história sobre prazer e tentação.

Vianne, a misteriosa desconhecida que chega à aldeia numa Terça-feira de Carnaval, é uma itinerante da vida. Com poder, mas sem poderes, consegue mudar o estado das coisas. Dona de um poderoso sexto sentido, vê o coração das pessoas e lê as suas emoções e as suas necessidades. Por isso, tudo o que faz em chocolate é perfeito para cada um, indo ao encontro dos seus desejos ou segredos.

Em contraponto ou em confronto (porque deles também vive o livro) surge Reynaud, o padre. Representante do conservadorismo e da Ordem, ocultou e castrou as sensações, os sabores e os sentimentos. Resultado da falta de amor, passa pela vida sem saber amar e com um desejo aceso de vingança...

Mas com uma chocolataria mesmo em frente, a dureza daquela figura negra vai perdendo a força. Quanto mais luta, mais o desejo se faz sentir...

Depois, os confrontos vão-se revelando: igreja/chocolataria, visão do mundo imposta/visão do mundo refrescante e original... E destes confrontos surge o grande pólo que rege o mundo: a Vida e a Morte, porque afinal o livro dá conta desse ciclo inevitável.

Na capa do "homem negro" (representação demoníaca do medo e da morte) recorta-se Armande. Aquela que quer encontrar uma sucessora (e encontra). Aquela que permite, num jantar, a passagem a uma vida nova.

Vianne, Annouk, Roux e os ciganos são estrangeiros naquela aldeia (reflexo de um mundo fechado e intolerante) que não aceita (porque não tem ideias próprias) aqueles que não seguem os dogmas e o protocolo rígido. Como tal, são excuídos e servem para denunciar uma situação comum nos dias de hoje: o racismo.

Enfim, em 40 dias, criam-se amizades e fazem-se inimigos, sempre ao quente sabor do chocolate...

publicado por I.M. às 12:32

24
Out 09

O tempo (ou falta dele) nem sempre permite a regularidade. Por isso, só hoje foi posível deixar as nossas leituras deste novo livro de Maeve Binchy.

 

De leitura acessível, o texto obriga a atenção redobrada, pois a galeria de personagens é enorme. De qualquer modo, é um livro fantástico que em cada capítulo aborda um tema de interesse, fazendo realçar os valores humanos (que a sociedade anda a perder). Do egoísmo à incompreensão, do amor à amizade e à tolerância vai toda uma escala que não escapa à autora.

O estilo novelístico, ou seja, o estilo que nos parece fazer acreditar que estamos a ver uma telenovela, obriga a pensar constantemente. E quando chega a hora de escolher a personagem com quem mais gostaríamos de passar tempo, deixamos de pensar e não hesitamos: Declan. Razões? É muito humano, muito simples e muito humilde.

Mas rapidamente somos forçados a pensar de novo: e em Portugal, há clínicas como esta? Não, claro está! Mas é pena, porque elas são uma boa ideia. Geram-se laços muito próximos entre técnicos de saúde, familiares e pacientes. Quando as instituições são pequenas, há maior envolvimento e mais qualidade de trabalho. A organização salta à vista.

E, de repente, mais uma interrupção: qual melhor mãe a que a obra faz referência? De novo sem hisatações, pensamos na mãe de Ania. Não recrimina e ajuda incondicionalmente no seu pouco...Porque uma boa mãe, acreditamos, tem que ter dedicação, compreensão, tolerância, amor e entrega total.

Nesta sequência levanta-se uma outra questão: a da relação mãe/filha e mãe/filho. São diferentes, sem dúvida. Todavia, partem da maneira de ser de cada filho ou filha. Esta "maneira de ser" condiciona as relações que se estabelecem.

E as questões que o livro levanta sucedem-se: terapia ocupacional? É bom, mas não deixa tempo para a vida pessoal; colocar os pais num Lar? Não é uma decisão fácil e pode destruir a vida das pessoas. É um mal necessário, fruto dos tempos... E tantas outras que nos deixaram com respostas incompletas.

Finalmente, o que importa mesmo é que o que fazemos aos outros nos vai recompensando das agruras do mundo...

publicado por I.M. às 14:34

26
Set 09

Acabaram as férias e as conversas sobre livros em torno de uma chávena de chá recomeçam. Deixamos aqui as nossas impressões sobre o último que discutimos. Já agora, hoje é a vez de Maeve Binchy com Alma e Coração...

 

 

De leitura absorvente, mas simples, O Jardim Encantado apresenta um universo mágico onde as plantas têm poderes que podem mudar o curso de uma vida.

Curiosamente, a magia da obra dá-se nesse jardim, pois aí acontece a beleza única do amor de Claire e Taylor. E lá que as plantas têm poderes, não há dúvida. Podem não ser mágicos, mas são pelo menos curativos (ou paliativos?). De que outra forma podemos entender o chá?

Não é de chá que se fala na obra mas de macieiras e maçãs. Tentadoras desde o princípio dos tempos, ganham na história igual valor simbólico. De uma perspectiva superficial e imediata, significam as partidas que a vida gosta de pregar quando empurra (tal como as maçãs) para qualquer lado. Todavia, não seria esta uma árvore que gostássemos de ter no jardim. É que a vida deve ser vivida dia-a-dia com as surpresas que nos vai reservando. E se a árvore existisse ali por perto, dar uma dentada na maçã seria sempre uma tentação...

É neste ambiente que conhecemos Claire e Sydney. A primeira acredita que tudo e todos são temporários. A segunda partilha da filosofia de que não nos podemos agarrar a tudo. Por isso, a sua vida é um conjunto de relações não comprometidas. Nas duas encontramos um pouco de nós, embora tivesse que haver um estádio intermédio para que a identificação total fosse possível.

Sydney é aventureira por força da influência da mãe e também pelos ciúmes da irmã. Para além do mais, não se revê nas características da família.

Claire, mais próxima de nós, é fechada e dificilmente consegue abrir-se. Vem de um meio considerado diferente e a diferença é pouco aceite...No entanto, as duas irmãs são duas faces da mesma moeda.

Por isso, um dos pontos importantes da obra é o arrependimento. As relações de sangue são muito fortes e as irmãs completam-se.

Sydney, a aventureira, volta a casa fugindo de uma relação complicada. E fez bem. Partiu em busca de protecção que, às vezes, só a família pode dar. Aqui reside um outro ponto importante da história: a violência doméstica. Um tema muito em voga nos dias que correm. Mas, mais grave, é o facto de muita dessa violência existir camuflada e encoberta, traduzindo-se, em grande parte dos casos, em violência psicológica (mais forte e mais refinada).

David representa, assim, a demonstração exagerada do machismo na obsessão patológica por Sydney.

E depois, numa noite de intenso aroma, acontece o amor... Claire e Taylor passam da dicotomia atracção/repulsa (que conduz ao sofrimento e ao fechamento por medo do abandono) ao verdadeiro amor. A força deste amor leva-nos a pensar que  estão destinados um ao outro. A aura que nele se pressente fá-lo uma pessoa diferente para um mundo diferente. Tal como Claire. E há um tanto de "adolescente" neste amor, pois é vivido fora de (e do)  tempo. Dois extremos que se aproximam e atraem porque se completam.

À volta gira Bay. A pequena que tem um dom e, por isso, é especial, demonstrando uma sensibilidade extrema. Mas à volta gira também Evanele. Aquela que faz a ligação entre todas as personagens, estabelecendo o tom da história. Os objecto que oferece, desconhecendo a razão, vão unindo todas as pontas até que o ciclo se fecha. Como a pregadeira...

 

publicado por I.M. às 10:06

Círculo de Leituras
Freguesia do RAMALHAL - Torres Vedras
Estamos a ler...
Patrick Suskind, O Perfume
Data de discussão...
22 de Janeiro de 2011
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